segunda-feira, 22 de março de 2010

6/7ª A bacia do prata.

Países da Bacia do Prata




Na área drenada pela Bacia do Rio da Prata, ou Platina, composta pelos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, configura-se a região do continente sul-americano denominada platina, integrada pelos países Paraguai, Uru¬guai e Argentina. Observe que o Brasil, apesar de ser banhado por essa bacia, não é incluído nessa denominação.

Como sabemos, cerca de metade da América do Sul foi colonizada pela Espanha. Porém, na épo¬ca colonial, a região do Rio da Prata nunca conseguiu alcançar a importância econômica que desfru¬tou a região dos Andes, onde a Espanha extraía ouro e prata na Colômbia, no Equador, no Peru e na Bolívia, o que tornou aquele país europeu imensamente rico, com seus galeões singrando os mares, levando a riqueza para a Europa.

Dessa forma, a região platina era relegada pelo império colonial espanhol. Somente no final do século XVIII e início do século XIX, a cidade de Buenos Aires, atual capital argentina, conseguiu crescer, adquirindo o status de principal porto da região do Prata. Isso porque, em 1776, a Bolívia, o Paraguai, o Uruguai e a Argentina passaram a se constituir no Vice-Reinado do Prata, com capital em Buenos Aires. Esse fato causou um grande impacto na cidade, semelhante ao que ocorreu no Rio de Janeiro com a chegada da Família Real portuguesa, em 1808.

Buenos Aires, no entanto, logo deixaria de ser a capital dessa parte da América do Sul, pois, em 1811, o Paraguai conseguiu a sua independência e, em 1816, a própria Argentina também se desligou da Espanha, ocorrendo em seguida a independência da Bolívia, em 1825, e do Uruguai, em 1828.

Finalmente, a partir de 1850, teve início o crescimento rápido dessa capital platina. Nessa época, a área do Pampa argentino, com seus terrenos férteis, tornou-se importante região agrícola e pecua¬rista, cultivando trigo e desenvolvendo a criação de bovinos e de ovinos para a produção de carne, couro e lã, produtos estes destinados ao mercado europeu.

A fertilidade do solo, a chegada de imigrantes europeus e a mecanização da lavoura fizeram do Pampa argentino uma das regiões agrícolas mais importantes do mundo, com grande produção de trigo, milho e soja, largamente exportados. Por sua vez, os rebanhos bovino e ovino do Pampa e da Patagônia, que, desde o século XIX, vêm sustentando as exportações de carne, foram bastante me¬lhorados com a chegada de raças européias. A comercialização desses produtos trouxe muita riqueza para a capital - que, como já foi dito, na época já se tornara o grande porto do país. Este em seguida modernizou-se, tendo participado dessa obra empresas e engenheiros ingleses, os grandes empreiteiros da construção civil em todos os continentes, no final do sé¬culo XIX e início do XX.

Como consequência, houve uma significativa imigração de ingleses para a Argentina, pois eles eram os grandes construtores de ferrovias, usinas elétricas, centrais telefônicas e sistemas de esgotos. Também aos ingleses pertenciam as grandes companhias de navios que incrementavam o comércio mundial por todos os mares.

Nessa época, o surto desenvolvimentista de Buenos Aires atraiu também outros imigrantes europeus, principalmente espanhóis da região de Barcelona, franceses e judeus europeus de várias procedências: alemães, poloneses, russos e austríacos. Entre todos os imigrantes, foram, seguramente, os italianos os que ingressaram em maior número na Argentina entre 1880 e 1930. A propósito disso, é comum o co¬mentário na capital argentina de que o autêntico portenho (pessoa que nasce em Buenos Aires) possui sobrenome italiano, fala espanhol e se veste elegantemente como um inglês. A palavra portenho tem origem na tradicional função portuária que essa cidade exerce, desde a sua fundação, em 1536.

Como nessa área a colonização foi tardia e não houve atividades coloniais lucrativas que demandassem mão-de-obra escrava, os países que integram essa região, principalmente Ar¬gentina e Uruguai, apresentam características bem diferenciadas etnicamente, basicamente uma população branca descendente de euro¬peus. Cerca de 85% da população desses dois países são descendentes diretos de espanhóis ou italianos e apenas uma pequena parcela é fruto da miscigenação com indígenas.

Já o Paraguai foi igualmente coloniza¬do pela Espanha e, como resultado de uma miscigenação intensa dos espanhóis com os nativos (os guaranis), apresenta uma porcen¬tagem de aproximadamente 95% de mesti¬ços. Portanto essa é uma das poucas áreas do continente sul-americano que não possuem significativa presença de afro-descendentes em sua composição étnica.



Argentina: a segunda economia sul-americana

A Argentina é o principal parceiro econômico do Brasil no MERCOSUL e possui um PIB equivalente ao do estado de São Paulo, o qual concentra 37% do PIB brasileiro. A área metropolitana de Buenos Aires possui uma população superior a 13 milhões de habitan¬tes, que corresponde a um terço da população do país.

Como centro político (capital da República) e tradicional centro portuário, essa cidade tor¬nou-se a grande metrópole nacional argentina, núcleo polarizador de praticamente toda a vida econômica e social do país.

O porto, de fato, foi a principal razão da grande prosperidade que a capital argentina experi¬mentou durante o século XX. Em decorrência da exportação (trigo, carne bovina, couro e lã) e da importação (bens de consumo, máquinas, etc.), realizadas principalmente com os países europeus, surgiu, nessa cidade, uma abastada burguesia mercantil, formada, em grande parte, por imigrantes e seus descendentes. Buscando substituir a importação de vá¬rias mercadorias, esses comerciantes aplica¬ram parte dos seus recursos na implantação de fábricas. Desse modo, contribuíram para a industrialização do país, atividade até hoje fortemente concentrada na Grande Buenos Aires, em Córdoba e em Rosário.

Capital da província de Buenos Aires, La Plata integra a área metropolitana de Buenos Aires. Além de centro político-administrativo, também desempenha função industrial, com destaque para o seu parque de refino de petróleo e para a sua produção de derivados de carne. Outras cidades argentinas, distribuídas nas diversas regiões do país, também cresceram e se tornaram pólos regionais, algumas como capitais provinciais, outras, pelo desempenho de importantes funções econômicas.

Nesse contexto, podemos destacar Mar del Plata, o grande centro de veraneio do Atlântico, que conta com acentuado movimento de turistas em suas praias. É também um destacado porto pesqueiro e importante pólo de comercialização dos produtos agropecuários da região do Pampa, principal área agro-pecuarista do país, que se estende até as províncias de Córdoba e Santa Fé, na área central do país. Porto situado no Rio Paraná, que é a grande artéria fluvial da Argentina, Santa Fé,capital da província de mesmo nome, perde em população e importância econômica para Rosário, que também está localizada nessa mesma província e é igualmente porto fluvial nesse mesmo rio.

Na região da Patagônia, a área mais despovoada do país, devido ao clima extremamente frio duas cidades destacam-se das demais: Comodoro Rivadávia, centro ligado à produção de petróleo e comercialização de lã, obtida do rebanho ovino - muito comum em toda a Patagônia -, e Neuquei centro petrolífero e capital da província de mesmo nome.

Também na Patagônia, na região dos Andes, a oeste, São Carlos de Bariloche é um importante centro turístico, com suas pistas de esqui e toda uma infra-estrutura hoteleira para receber turista interessados em esportes de inverno. No extremo sul do país, a gelada Ushuaia, a cidade mais meridional do planeta, também atrai turistas durante seu rigoroso inverno.

O estreitamento dos laços de amizade Brasil-Argentina ajudou a transformar o MERCOSUL em realidade e tem sido crescente o fluxo turístico entre esses dois países.

A política neoliberal dos últimos governantes, privatizando várias estatais no país, trouxe como consequência o sucateamento dos parques industriais argentinos, processo que já vinha acontecendo desde a época dos governos militares.



Uruguai: a "Suíça sul-americana"

A pecuária sempre foi o item dominante da economia do Uruguai, com vasta criação de gado bovino e ovelhas, que aproveitam a vegetação rasteira dos campos presente praticamente em todo o seu território. As raças preferidas pelos pecuaristas uruguaios são as espécies Hereford, de origem inglesa, ideal para o corte, e o carneiro Merino argentino, cuja camada de lã, muito espessa, serve de matéria-prima para a fabricação de agasalhos em um país que possui invernos muito frios. Assim como os argentinos, os uruguaios sempre foram exportadores de carne e de lã, o que acabou fazendo desse país um dos mais prósperos da América do Sul. Tal progresso se reflete no elevado padrão de vida de sua população, com o mais alto nível de escolaridade de toda a América Latina. Nas décadas de 50 e 60 do século XX, o Uruguai chegou a ser conhecido como a "Suíça sul-americana", em razão da sua estabilidade política, da solidez de seu sistema bancário e do bem-estar social de seu povo.

A contribuição da agricultura na sua economia não é das mais significativas, mas as culturas de trigo, milho, cevada, aveia, linho e frutas de clima temperado abastecem o consumo interno, princi¬palmente o mercado da Grande Montevidéu.

Geograficamente essas plantações estão concentradas à margem esquerda do Rio Uruguai, o que determinou o crescimento de centros urbanos, como Salto e Paysandú, as maiores cidades do país depois de Montevidéu e Punta del Este.

Montevidéu, a capital do Uruguai, tem muita semelhança com Buenos Aires. Ambas nasceram e cresceram na condição de centros portuários no estuário do Rio da Prata, fator de fortalecimento das suas economias, o que serviu para atrair grande contingente de imigrantes europeus no final do século XIX e início do século XX. Isso se reflete na etnia de sua população, formada essencialmente por brancos, que até hoje cultiva hábitos trazidos da velha Europa, principalmente da Itália, como o consumo de apetitosas massas e excelentes vinhos.

O tango, originado em Buenos Aires nos bairros de imigrantes italianos, igualmente embala as noitadas de Montevidéu, pois as duas cidades possuem o mesmo perfil histórico, cultural e turístico. Montevidéu, além de centro político, como capital do país, é importante núcleo portuário e fi¬nanceiro, porém sua industrialização ainda não é expressiva.

Com a entrada do Uruguai no MERCOSUL, na última década do século XX, os produtos fabricados nesse país contam também com os mercados consumidores do Brasil, Paraguai e Argentina, que, juntos, somam mais de 200 milhões de habitantes. No turismo, destaca-se a cida¬de balneária de Punta del Este, que atraiu, durante a segunda metade do século XX, milhões de brasileiros e argentinos para desfrutarem dos en¬cantos dessa cidade, principalmente de suas praias. Seus hotéis e restau¬rantes são frequentados pelos "ricos do MERCOSUL", sendo o verão de Pun¬ta del Este uma passarela de paulista¬nos, cariocas e portenhos, num clima de elegância que se compara ao da Riviera francesa.

Com o relevo predominante mente baixo, O Uruguai ocupa uma área situada entre o Rio Uruguai, que originou o nome do país, e o Oceano Atlântico. Essa nação platina é o segundo menor país sul-americano, maior apenas que o Suriname. Sua localização entre o Brasil e a Argentina foi motivo de disputa, no passado, entre essas duas nações. Seu território chegou até a ser anexado ao nosso país, em 1821, com o nome de Província Cisplatina. Isso acelerou a sua independência. Em 1825, desligou-se do Brasil, contando com a ajuda heróica de seus habitantes de língua espanhola e com o forte apoio político da Inglaterra, que tinha interesse na comercialização de seus produtos.

Se, no passado, a localização do Uruguai foi motivo de proble¬mas políticos, na atualidade, con¬siste num fator altamente positivo, pois, ao se integrar ao MERCOSUL, esse país ficou simultaneamente próximo do eixo Rio-São Paulo e da grande Buenos Aires, áreas de maior dinamismo econômico des¬se mercado regional.

As estatísticas do comércio exterior uruguaio revelam que 50% das suas exportações e im¬portações são realizadas exatamente com o Brasil e com a Ar¬gentina, demonstrando o elevado grau de integração desse país com seus vizinhos.

Com o funcionamento efetivo da União Aduaneira do MERCOSUL, o Uruguai terá a disponibilidade de um mercado consumidor sig¬nificativo, capaz de proporcionar às suas indústrias oportunidade de crescimento.







Paraguai um "país interior"

Grande parte da energia elétrica consumida pelo parque industrial do Centro-Sul brasileiro vem da gigan¬tesca Usina Hidrelétrica de Itaipu, pro¬jeto binacional concluído na década de 70 do século XX, do qual participaram Brasil e Paraguai, financiados, natural¬mente, com recursos de grandes bancos internacionais. Como as cidades paraguaias não são grandes e sua atividade industrial é muito restrita, o consumo energético nesse país é pequeno. Com isso, sobra grande quantidade de energia elétri¬ca, gerada em Itaipu, para ser vendida ao Brasil. Na fronteira com a Argentina, também no Rio Paraná, próximo à con¬fluência deste com o Rio Paraguai, outra grande usina (Yacyretá) foi construída pelo Paraguai, em parceria com a Ar¬gentina. Também para esse país o Para¬guai vende a maior parcela da energia ali produzida.

O Paraguai, assim como o Uruguai, outro integrante do MERCOSUL, apresen¬ta uma modesta economia e tira vanta¬gens da localização próxima do Brasil e da Argentina, vizinhos mais desenvolvi¬dos economicamente. Em virtude da venda da energia elétrica produzida por essas usinas e de sua condição de entreposto comercial de produtos populares, vendidos prin¬cipalmente aos "sacoleiros" do Brasil, a economia paraguaia, nos últimos anos, tem crescido satisfatoriamente. Além disso, o ingresso do país no MERCOSUL, coincidiu com o final da ditadura de Alfredo Stroessner, o que significou a democratização e melhor convivência com seus vizinhos também redemocratizados.

Existe, hoje, uma corrente migratória brasileira de sulistas que tem ocupado a parte oriental do Paraguai, incrementando ali o cultivo de soja e a pecuária bovina, o que provoca a devastação das áreas florestadas, a exemplo do que vem acontecendo no norte do Brasil.

Assunção, capital do Paraguai, é uma cidade antiga, originada de um forte construído pelos espanhóis na margem do Rio Paraguai, em 1537. Com o recente fortalecimento da eco¬nomia paraguaia, após o seu ingresso no MERCOSUL, sua feição urbana está mudando rapidamente, com a constru¬ção de modernos edifícios para abrigar os escritórios das mais recentes empre¬sas ou a classe média emergente, con¬sequência das novas oportunidades que estão despontando no país.

Nos restaurantes da cidade, a música de fundo são as guarânias, interpretadas com muito romantis¬mo ao som do violão e da harpa. Este último instrumento foi trazido pelos padres jesuítas, na época das missões. Nos séculos XVII e XVIII, a ordem dos padres jesuítas instalou-se na região do Prata, em particular no Paraguai, no norte da Argentina e no oeste do Rio Grande do Sul, fundando aldeias com o objetivo de catequizar os ín¬dios guaranis, dando origem à região conhecida como "das missões".

Na parte leste do país, em que se concentra a quase totalidade da população paraguaia, estão a capital e as principais cidades, entre elas Ciudad del Este, a mais importante do país depois de Assunção. Essa cidade, nos últimos 30 anos, conseguiu alcançar um bom índice de crescimento, gerado pelo co¬mércio de produtos eletrônicos importados da Ásia. Localizada em território paraguaio, à margem direi¬ta do Rio Paraná, do lado oposto a Foz do Iguaçu, no estado do Paraná, Ciudad del Este está conectada com essa cidade brasileira pela Ponte da Amizade, que serve de interligação do Paraguai com o Brasil.

Localizado no interior do continente, o Paraguai foi conquistado por espanhóis, que, pelo Estuário do Prata e pelo Rio Paraná, alcançaram o Rio Paraguai. Esses rios constituíram, por muito tempo, as únicas vias de acesso a esse nosso vizinho sul-americano. No século XIX, entre 1865 e 1870, Paraguai, Brasil, Argentina e Uruguai envolveram-se numa grande guerra. Ingleses e alemães, na disputa pelo mercado consumidor na América Latina - os últi¬mos apoiando o ditador paraguaio Solano López -, terminaram criando condições para um grande genocídio no Paraguai, cuja população, nos cinco anos do conflito, diminuiu de 1 milhão e 250 mil para pouco menos de 300 mil habitantes. Durante séculos, praticamente tudo girava em torno da área ribeirinha, no Paraguai. A capital, por exemplo, distante 1 450 quilômetros do mar, surgiu como porto fluvial no rio que emprestou seu nome ao país. Por essa razão, todas as cidades paraguaias importantes são servidas pelas duas gran¬des artérias fluviais: Concepción e a área metropolitana de Assunção, às margens do Rio Paraguai, e Ciudad del Este e Encarnación, no Rio Paraná.

O Rio Paraguai divide o país em duas áreas distintas. A oeste se encontra a região do Chaco, área alagada, com baixíssima densidade demográfica, que, ultrapassando a fronteira do país, se estende pelas terras brasileiras, recebendo aqui o nome de Pan¬tanal Mato-Grossense. A leste, como já vimos, estão a capital e as principais cidades.

O Grande Chaco abrange partes do Paraguai, do Brasil, da Bolívia e da Argentina, tendo a área pa¬raguaia sido conquistada da Bolívia na Guerra do Chaco (1932-1935), estimulada por transnacionais do petróleo. Nessa guerra, morreram 50 mil paraguaios em campo de batalha, embora até hoje o petróleo não represente importância na economia desse país.